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Enquanto há vida...

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É por isso que, em pleno Renascimento, o magistral Michelangelo dizia que "Deus concedeu uma irmã à recordação e chamou-lhe esperança".



Temos hoje um razoável consenso: os tempos estão terríveis, difíceis, complicados; partilhamos uma época de grande intranquilidade espiritual, de inúmeros padecimentos físicos, de infindos distúrbios existenciais, de profundos dilemas morais. Cabe, porém, uma questão alguma vez não foi assim? Levando-se em conta que todo e cada ser humano sempre viveu na era contemporânea, em qual delas não teria valido, então, o alerta de Guimarães Rosa de que "viver é muito perigoso"?



No entanto resistimos! A esperança é um princípio vital, expresso na sábia verdadeira e constatação comum de que "enquanto há vida, há esperança"; mesmo ante as mais (aparentemente) intransponíveis circunstâncias, achamos possível ser de outro modo, inventamos e reinventamos opções, recusamos a possibilidade de as realidades nos dominarem e, sem cessar, sonhamos com o mais e o melhor. Em princípio, como para outros animais, as memórias das inevitáveis e sofridas (mas não exclusivas) experiências cotidianas deveriam deixar-nos como legado o medo da repetição, o temor cauteloso pelo retorno da sensação ruim e até um impulso em direção ao desalento. Contudo, de novo, resistimos!



É por isso que, em pleno Renascimento (sempre Renascimento...) do século 16 ocidental, o magistral Michelangelo dizia que "Deus concedeu uma irmã à recordação e chamou-lhe esperança". Essa idéia foi retomada no século 19 pelo dramaturgo francês Victor Hugo —não por acaso um dos expoentes máximos do romantismo—, que afirmava ser "a esperança uma memória que deseja" e, ainda, na quase sesquicentenária obra "Os Miseráveis", o mesmo autor nos instiga, afirmando que "se julgaria bem mais corretamente um homem por aquilo com que ele sonha do que por aquilo que ele pensa".



Sonho aí não significa, caro, devaneio inútil ou delírio; sonho nessa acepção é o lugar do não-pronto, mas desejado, ansiado, querido. Nessa direção, também o Oriente nos socorre com a milenar inspiração que anima os escritos de Zhou Shuren (mestre da moderna literatura chinesa, conhecido pelo pseudônimo literário Lu Xun). Escreveu ele que "a esperança não é nem realidade nem quimera; ela é como os caminhos da terra: sobre a terra não havia caminhos; eles foram feitos pelo grande número dos que passam".



O dinamarquês (depois naturalizado norte-americano) Jacob Riis (considerado o primeiro fotojornalista) dedicou sua arte, na transição do século 19 para o 20, a escancarar a magnitude dramática da pobreza urbana; publicou centenas de fotografias daqueles que Victor Hugo imortalizara como miseráveis, mas plenos de esperança. O fotógrafo consignou a humana capacidade de não desistir em uma belíssima imagem, ao dizer que, "quando nada parece ajudar, eu vou e olho o cortador de pedras martelando sua rocha talvez cem vezes sem que uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas, e eu sei que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as que vieram antes".



Os excessivamente pragmáticos (ou corretamente chamados de idiotas da objetividade) diriam ser essa uma concepção piegas; são esses, com muita probabilidade, incapazes de compreender a esperança como produtora de futuro e aniquiladora da dureza do existir. Assim, não perceberiam a profunda beleza contida na lenda atribuída ao também cortador de pedras Michelangelo. Ao ser questionado sobre como fizera a escultura de David (com quase 4,5 m em um só bloco de mármore, guardada na Academia de Belas Artes de Florença), ele disse: "Foi fácil; fiquei um bom tempo olhando o mármore até nele enxergar David. Aí peguei o martelo e o cinzel e tirei tudo o que não era David".



MARIO SERGIO CORTELLA, fllósofo, professor da PUC-SP é autor de "A Escola e o Conhecimento: Fundamentos Epistemológicos e Políticos" (Ed. Cortez/IPF), entre outros.



[Publicado no Caderno Folha Equilíbrio, da Folha de S.Paulo – 21 de junho de 2001]

Autor da mensagem: Mario Sergio Cortella

Contribuíção: Denise Carreira

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